“Mesmo que os montes desabem e os oceanos entrem em convulsão,
não entraremos em pânico: Deus está conosco.”
Salmo 46:2-3
Receber a notícia de que meu filho seria levado para a UTI pediátrica foi como ter o chão arrancado dos pés. Estávamos no pronto-socorro infantil, entre exames, sintomas imprecisos e descartes de possibilidades: bronquiolite, pneumonia, dengue, COVID-19… Mas foi no exame de sangue que tudo mudou. Neutropenia grave. Um nome técnico para uma ausência drástica de defesa. O motivo ainda era um mistério, mas a direção já estava traçada: UTI Pediátrica, em isolamento. Precaução reversa, disseram, para protegê-lo. Mas, para mim, era um aviso silencioso de que estávamos cruzando uma fronteira.
O vidro ao redor do quarto era translúcido, mas a sensação era opaca. Do lado de dentro, começava nossa guerra. E, mesmo sem perceber naquele instante, Deus já preparava o milagre.
Foram anos trabalhando em UTI Pediátrica e Neonatal, cuidando de bebês, crianças, acompanhando prontuários, lidando com situações complexas. Mas nada — nada — se comparava à dor de ver o meu próprio filho naquele lugar. O que antes era técnica, agora era desespero. O que antes era rotina agora era perda de controle. Eu estava em cena, mas não reconhecia meu papel. A dor era dupla: não só pelo que acontecia ali, ao lado do leito, mas porque meu coração estava dividido entre três lugares ao mesmo tempo.
Noah precisava de mim ali, monitorando cada detalhe, lendo com os olhos de mãe o que os aparelhos não poderiam captar. Mas Théo e Sarah estavam em casa, sem entender direito por que a mãe não voltava, por que os dias estavam diferentes, por que o beijo de boa-noite tinha desaparecido. E eu; eu não podia estar em todos os lugares. Não podia dar o colo que eles mereciam. Não podia ser inteira.
Naquele quarto de vidro, o tempo pareceu suspenso. A fé que eu conhecia — a que se alimentava de louvores, de promessas, de versículos sublinhados— começou a ser reconfigurada. Não se tratava mais de saber o que Deus podia fazer. Tratava-se de crer que Ele estava ali, mesmo quando tudo parecia desabar.
E foi ali, no susto, no medo, no chão que faltava, que o milagre começou a nascer.
Assim que entramos na UTI, colocaram o meu bebê no leito, e naquele instante, o meu colo ficou vazio.
Foi como se o corpo soubesse antes mesmo da mente: algo havia mudado. Tudo dentro de mim queria correr até ele, tomá-lo de volta nos braços e nunca mais soltá-lo. Mas eu sabia. Sabia que ele precisava de cuidado, de exames, de atenção especializada. Sabia também que meu papel ali não era fugir: era permanecer.
Fiquei ao lado, imóvel, como se minha simples presença pudesse protegê- lo. O instinto materno gritava: “Pega ele no colo! Agora!” Mas a realidade sussurrava outra coisa: “Espera. Observa. Confia.” Sentei naquela poltrona rígida e, a partir dali, me tornei mais do que mãe: tornei-me guardiã.
Meus olhos se fixaram no pequeno corpo que agora dependia de tantos fios. Minhas mãos se entrelaçaram numa oração silenciosa. Meu coração, suspenso entre o céu e a terra, só sabia clamar sem palavras.
O colo de uma mãe nunca está completamente vazio. Ele guarda o peso das memórias, das promessas, das ausências que doem. E naquela hora, o meu doía. Doía com uma força que não cabia no corpo.
Sem poder abraçá-lo como queria, fiz o que me restava: toquei.
Toquei com reverência, com ternura, como se minhas mãos pudessem dizer tudo que a voz não conseguia: acariciei seu rosto com a ponta dos dedos, segurei sua pequena mão, afaguei o pezinho com cuidado, mesmo entre sondas e monitores. Era meu jeito de dizer: “Mamãe está aqui. Você não está sozinho.”
Eu queria que ele sentisse minha presença mesmo sem entender. Queria que, de algum modo, o amor que escorria de mim alcançasse cada célula dele. E, naquele momento, entendi algo profundo:
O toque de uma mãe é também oração.
Não se trata de técnica nem de controle.
Trata-se de um amor que carrega o céu nas mãos.
Ali, no silêncio daquele quarto frio, compreendi: mesmo com o colo vazio, a alma de uma mãe continua cheia. E esse amor silencioso atravessa paredes, protocolos e distâncias. O amor de mãe encontra caminhos onde os braços não alcançam. E quando eu não podia fazer mais nada, amar ainda era tudo.
Mas nem sempre era fácil sustentar esse amor com serenidade. Havia momentos em que o corpo estava ali, mas a alma se rasgava em dois. Eu era mãe, mas também era técnica em enfermagem. Não estava trabalhando. Não fazia parte da escala. Mas o conhecimento estava ali comigo, como um peso.
Sabia o que precisava ser feito. Sabia da importância de cada exame, de cada cuidado. Mas naquele dia foram os olhos do meu filho que me imploraram: “Mamãe, me ajuda.” “Não deixa me furarem…” “Você está aqui… Por que não tá me salvando?”
E aquilo me partiu em pedaços. Porque eu sabia. Sabia que era necessário. Que era para o bem dele. Mas saber não me poupava da dor. Eu queria pegá-lo no colo, dizer que tudo ia passar. Queria protegê-lo da agulha, do medo, da dor. Mas não podia.
Tudo o que me restava era estar ali. Presente, calada, orando com o coração. Dividida entre o que eu sabia e o que eu sentia. Entre o que era certo e o que era suportável. Entre a mãe que queria correr e a profissional que entendia.
Foi ali que percebi: há dores que nem o conhecimento resolve. Há guerras internas que nem a experiência silencia. E foi para Deus que eu olhei naquela hora. Porque meus olhos já não sabiam pra onde fugir…
Enquanto eu cuidava de Noah na UTI, o meu coração clamava por Théo e Sarah. Eles estavam em casa, esperando. Perguntando por que o irmão estava no hospital. Tentando entender por que eu não estava com eles naquela noite e nas seguintes…
Como explicar a uma criança que a mãe está inteira, mas não está presente? Como fazer um abraço atravessar a distância? Como manter o vínculo quando o olhar está preso no vidro da UTI?
Chorei por eles. Chorei por não estar na rotina deles. Chorei ao imaginar a dor que minha ausência lhes causava, mesmo sem eu ter culpa. Mas tomei uma decisão: eu encontraria maneiras de continuar presente na vida deles, mesmo estando longe fisicamente.
Gravei vídeos. Fiz ligações cheias de amor. Pedi ao pai e a pessoas de confiança que fossem minha extensão em casa.
E quando voltei para casa, não voltei com culpa. Voltei com o coração inteiro. Porque o meu amor não foi dividido — ele foi multiplicado. Ser mãe de um filho internado é um chamado. Mas continuar sendo mãe dos que estão fora da UTI é uma graça diária… E Deus me sustentou nisso também.
Garanta o livro completo e continue essa história.